Quando era garoto, morava em Irajá, no subúrbio do Rio, quase em frente a um campinho de futebol. Era um terreno barrento, onde colocávamos tocos, que serviam de balizas. Havia um colega nosso que era deficiente físico, mas gostava de agarrar. Então, porque ninguém queria ser goleiro, saudávamos com muita alegria a presença do Carlos, nosso goleiro deficiente. Ele ficava com duas muletas, e quando jogávamos a bola em sua direção, ele rapidamente se desfazia delas, e agarrava a bola. Quando jogávamos a bola pelo alto, ele se valia das muletas para rechaçá-la. Por termos o Carlos no gol, era proibido dar bicão. Ou seja, ninguém podia chutar forte para o gol. Estávamos fazendo algo bonito, mas com a motivação errada.
Na hora da divisão dos times, deixávamos os ruins de bola por último. Eu costumava perguntar: “Faz questão de lado?” E se me dissessem que não, eu dizia, brincando: “Então, fica aí do lado de fora”. Mas dentre os “pernas de pau” e “cabeças de bagre” da pelada, os piores eram aqueles que, além de não terem intimidade com a pelota, ficavam chupando sangue da equipe. Ou seja, não corriam nada nem se esforçavam pelo bem do time. Quase sempre ficavam parados, esperando a bola chegar aos seus pés. O chupa-sangue só tinha vez na pelada quando era o dono da bola.
Agora, passo por um templo evangélico e leio a placa: “Unção. Venha pegar a sua unção para ser abençoado”. Vendo a palavra unção, logo me lembrei do reverendo Antônio Elias que, ao ser perguntado sobre o que era unção, respondeu: “Não sei. Só sei que uns são; outros, não”. O Raphael Fernandes costuma dizer que a palavra é um erro de concordância.
A palavra Cristo é a versão grega de Messias, cujo significado é “aquele que é ungido”. O ungido, ou seja, aquele que tem unção, é a pessoa que tem uma missão especial. Jesus Cristo teve mesmo uma missão peculiar: Ele “veio buscar e salvar aquele que estava perdido” (Lc 19.10). Veio ser o Salvador do mundo.
Na Bíblia, a pessoa que tem unção serve, trabalha, gasta-se por Deus e pelo Seu Reino. O rei, o profeta, e o sacerdote, no Antigo Testamento, eram ungidos porque tinham uma tarefa clara a cumprir. Foi assim também com Jesus. Ele “não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20.28).
Hoje, invertemos as coisas. Os crentes são conclamados a “pegar a sua unção para serem abençoados”. Que unçãozinha egoísta, essa! É a unção dos que só querem ser servidos; daqueles que apenas desejam receber bênçãos de Deus. Eis uma grande aberração: hoje unção tornou-se algo de interesseiros. São os chupa-sangues do Reino de Deus.
No mesmo dia em que passei por aquele templo e li a placa da unção, cheguei ao gabinete pastoral da PIBT e encontrei uma irmã que veio me pedir para trabalhar. Ela quer servir mais a Deus, quer ser mais útil à igreja. Na sua profissão, Deus tem lhe dado várias oportunidades de socorrer, testemunhar e abençoar famílias, mas ela quer mais. Ela quer nova missão.
Você é crente no Senhor Jesus Cristo? Foi alcançado pela Sua imensa Graça? O que você quer agora? Servir ou ser servido? Abençoar ou ser abençoado? Precisamos de crentes cheios de unção. Ou seja, mais que nunca, necessitamos de crentes bíblicos, úteis, desejosos de servir aos outros e a Deus, buscando frutos para o Seu Reino. Você quer ser alguém assim?
Pastor Renato Cordeiro de Souza
Pib Teresópolis
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