“TRISTEMUNHO”
Seu Geninho estava bastante abalado. Sentia uma dor no peito e um mal-estar incomum. Além disso, toda vez que caminhava vinha um cansaço anormal. Bastava começar a andar pra se sentir cansado. Conversou com a mulher, que o convenceu a procurar um médico.
O cardiologista ouviu os seus resmungos, tirou-lhe a pressão e fez um eletrocardiograma. Constatou que seu caso era preocupante, mas que se ele começasse a tomar os remédios prescritos, fizesse outros exames, e mudasse os seus hábitos alimentares, haveria boa chance de ele melhorar. Mas, insistiu: ele deveria começar a tomar os remédios imediatamente.
Seu Geninho, embora fosse batista, de tanto ouvir os testemunhos de milagres em profusão em cultos neopentecostais, na TV, decidiu que iria se cuidar, não da maneira recomendada pelo médico, mas com uma efusão de fé. Não contou nada em casa, mas resolveu ir à igreja de um “apóstolo”, dissidente da rede do bispo Macedo, pois tinha ouvido que há lá uma grandiosa produção de curas e milagres.
No dia seguinte saiu de casa cedo. A mulher vendo-o com a receita médica na mão, pensou que tinha ido à farmácia, comprar os medicamentos. Que nada! Rumou pra tal igreja. Depois de ouvir inúmeros testemunhos de curas divinas, pela intervenção do tal “apóstolo”, Seu Geninho não via a hora da prece poderosa. Finalmente chegou a hora da bênção. Os doentes foram orientados a levantarem seus receituários médicos e incentivados a jogá-los fora, após a oração de fé. Seu Geninho não se continha em si. Sentiu um arrepio todo especial quando ouviu a oração poderosa. Como tinha muita fé, creu que, finalmente, estava curado, sem remédio, sem exames, só pelo poder da prece.
Voltou pra casa contente, e passou os dois primeiros dias realmente mudado. Mas, no terceiro dia após a “cura”, Seu Geninho começou a sentir uma fraqueza imensa, uma dor no peito muito mais forte, e um sentimento de que a sua vida estava por um fio. Foi aí que contou pra mulher que não comprou remédio nenhum, porque havia sido “curado” pelo “apóstolo”. Vendo o seu real estado, a mulher levou-o correndo para o hospital. Lá, de plantão, estava o tal cardiologista, que o examinou e constatou que ele não havia seguido nenhuma de suas recomendações. Tomou uma bronca considerável do médico, e ficou um mês hospitalizado, num quadro crítico, correndo risco de morte.
Seu Geninho saiu dessa. Agora está em casa se tratando. Está tomando a medicação prescrita, e inclusive já marcou outros exames.
Uma pergunta: Quantas serão as pessoas, também declaradas “curadas” por esse “apóstolo”, cujas famílias estão hoje se lamentando por não terem obedecido aos conselhos médicos?
Pastor Renato Cordeiro de Souza
Pib Teresópolis
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