Sou batista, tenho uma identidade é a primeira palestra em nosso encontro. Seu tema foi sugerido pelo Pr. Daniel Guimarães. E foi aceito sem relutar. É bastante oportuno começar por aqui. O conceito de identidade evangélica e batista anda muito difuso. Para a mídia secular, sempre desinformada e estabanada, evangélico é alguém que não é católico. Nos anos setentas havia um jogador de futebol do Botafogo, ruim de bola toda vida, mas que chegou até a Seleção do Zagallo, um tal de Chiquinho Pastor. Era membro da Cultura Racional, movimento de fundo esotérico que nem cristão é, mas logo lhe pespegaram o rótulo de pastor. Em Manaus, nos cinco anos em que lá passei, um quarteirão antes da PIB de Manaus havia a PIB da Restauração, movimento ultrapentecostal, que nada tinha de batista, mas que guardava o nosso nome. E muita gente confundia as duas igrejas.
Vamos
tratar da identidade batista. Mas surge uma questão: “que batista?”. O que este
nome nos sugere? Conheci no Amazonas os
“Batistas da Fé”. Gente séria, muito trabalhadora, até mesmo bem preparada
teologicamente, mas que não admitia liderança feminina nem mesmo estimulava que
mulheres orassem
Em Roraima, os batistas regulares iniciaram o trabalho batista no tempo em que a região ainda era Território Federal do Rio Branco. Eles têm a Igreja Batista Central, que é a pioneira. Chegamos dez anos depois e abrimos a Primeira Igreja Batista, quando eles já tinham duas. Nós nos consideramos batistas e se há trabalho de outro grupo e não o nosso, em uma cidade, consideramos o lugar sem trabalho batista. O que caracteriza, então, a identidade batista? Aqui mesmo, entre nós, teremos muitas práticas eclesiológicas diferentes. Alguns serão a favor da ceia restrita e outros não. Alguns rebatizarão pessoas de outros grupos imersionistas e outros não. Os modelos eclesiológicos são cada vez mais numerosos. O que é identidade batista, então?
1. REMONTANDO À ORIGEM
Os batistas existiam antes de nós. Nós, que aqui estamos, não fundamos o movimento. Os batistas também já existiam antes da Convenção Batista Brasileira. Nossa linha deve ser esta: o que direcionou os primeiros batistas? Por que eles surgiram? Vamos examinar os pontos principais balizadores dos batistas. Eles serão nossa linha por onde andar. E mostrarão alguma coisa de nossa identidade. Pelo que pude examinar de nossa história são oito os pontos principais, dentre vários. São eles: a autoridade da Escrituras, a liberdade de opinião, o batismo consciente de crentes, a segurança eterna dos salvos, batismo e ceia como ordenanças e não sacramentos, o sacerdócio universal de todos os crentes, a autonomia da igreja local com governo congregacional, a separação entre Igreja e Estado.
Estas características são encontradas no início de nossa
história, no início do século XVII, como vistas na insatisfação de muitos
cristãos da época com a Igreja Anglicana. Nesta encontravam-se dois grupos mais
numerosos, dentre outros, os puritanos e os separatistas. Foi daqui, dos
separatistas, que surgiram os primeiros líderes batistas, John Smyth e Thomas
Helwys. Isto é história. Tentar ajustar os batistas aos valdenses, albigenses,
pretrobrussianos, cátaros, anabatistas e outros insatisfeitos com a Igreja
Romana, ao longo da história, é perigoso. É mais romance que história. E uma
tentativa de dourar a história para tornar nosso passado mais remoto e
comovente não é honestidade intelectual. Nós não precisamos disso. A
veracidadade da doutrina batista não depende de identificação com a igreja de
Jerusalém. Depende de sua confrontação com o Novo Testamento. Disse-me o Pr.
Irland Pereira de Azevedo que, conversando com um cônego católico que fizera
seu doutorado
Alguém achará que estes pontos são genéricos. Posso responder que o ensino de Jesus e a Bíblia são genéricos, a ponto de permitir que grupos como Testemunhas de Jeová e Mórmons se digam cristãos. Nós é que particularizamos e criamos minúcias. Mas estes pontos são nossas características maiores e deles derivam algumas posturas doutrinárias. A observância ou não destes pontos é responsável por erros que aparecem com roupagem diferente em nosso tempo. Eles se ampliam em outros aspectos. Vamos considerá-los, portanto.
2. A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS
Todo grupo herético diz crer na Bíblia como Palavra de Deus e como única regra de fé e prática. Depois, estabelece suas normas com base nas suas tradições eclesiásticas ou visão de fundadores ou líderes mais proeminentes (ou mais falantes, com domínio de discussão).
Neste ponto seguimos o princípio de Lutero de Sola Scriptura. Lutero rejeitou que a Tradição e o Magistério da Igreja fossem elementos que regessem a teologia da Igreja. Para nós fica uma advertência. Temos muito de tradição e de magistério como formadores de nossa teologia. Isso acontece quando particularizamos e definimos o que a Bíblia não define e fechamos questão, rejeitando qualquer outra prática diferente da nossa como válida.
Temos uma Declaração Doutrinária, como Convenção Batista Brasileira que somos. Um documento que me parece muito bom e dentro do qual me situo sem problemas. Mas ele é um documento indicativo e não normativo. Ou seja, ele indica o que cremos e não é uma norma para nós. Nossa normativa são as Escrituras e nenhum outro documento. Se isto parece óbvio, desejo fazer três observações aqui. Uma refere-se à pressão do sucesso. A segunda, à pressão do líder mais expressivo. A terceira, à nova hermenêutica. São elementos que militam contra a normatividade das Escrituras.
A pressão do sucesso é a aquela que sucede porque um
determinado método está dando resultado em algum lugar e com isso se torna
quase que um padrão. Um método é um caminho para se chegar a um alvo. Mas temos
visto a sacralização de métodos. Alguém consegue encher a igreja com um método
e logo começa ter seguidores, e passa a realizar congressos para exportar seu
método. Há métodos que funcionam num lugar e em outros, não. Fui pastor, por 7
anos e meio, de uma igreja, no Distrito Federal, da qual fui o organizador. Era
um grupo, tranformamos em congregação e depois
A pressão do líder é algo que se observa quando líderes que são mais expressivos, ou mais falantes ou que melhor se articulam em bastidores, acabam se impondo como o padrão para os demais. Os batistas sempre se caracterizaram por divergências. Desde o início, com os chamados batistas gerais e os batistas particulares. A Aliança Batista Mundial reúne grupos com práticas diferentes, dentro de seu bojo. A tendência à uniformização, muitas vezes de acordo com a cabeça de uma minoria, em busca um procedimento padrão, coloca-nos na situação de termos dominantes entre nós, e assim, de chegarmos a outra regra de fé e de prática, a obediência a algumas pessoas e à prática dessas pessoas. O Novo Testamento é genérico em muito da eclesiologia que nele aparece. Alguns querem particularizar e impor seu estilo. Isto me parece problemático. A falta de aceitação de pensamento diferentes traz mais “rachas” do que a diversidade de opinião. Nenhum líder nosso, por maior que seja sua igreja, por mais capacitado intelectualmente que seja, e por maior que seja seu cargo na estrutura denominacional, está apto para determinar o que cremos. O que cremos foi razoavelmente solidificado em quase 400 anos de história batista no mundo.
A nova hermenêutica é o aspecto mais preocupante no uso das Escrituras. Com a Igreja Católica, a fonte de autoridade era a Igreja, subsidiada pela Tradição e pelo Magistério. Lutero tirou a fonte de autoridade da Igreja e a colocou na Bíblia. O movimento pentecostal a tirou da Bíblia e colocou na experiência. O movimento neopentecostal está construindo outro eixo hermenêutico: a de gurus, de pessoas com mais experiência com Deus. É o início de um retorno ao eixo católico. Isto vai trazer conseqüências danosas para o evangelho, mais à frente, embora já esteja trazendo agora. É que nesta postura, a Bíblia fica subordinada às declarações humanas. Em vez de reger a teologia da igreja, ela passa a ser explicada pela teologia da igreja. Esta nova hermenêutica é muito perigosa porque além de mudança de eixo mudou também o critério de interpretação. No protestantismo histórico e entre os evangélicos históricos, o critério de interpretação da Bíblia sempre foi a pessoa de Cristo, com base no conceito de na revelação progressiva, que depreendemos bem de Hebreus 1.1-2. É o Novo Testamento que interpreta o Antigo e este não pode se sobrepor ao Novo. Hoje o critério de interpretação é o Espírito Santo. Um pastor neopentecostal dizia pela televisão que “Jesus é o canal para nos trazer o Espírito Santo”. Antes era o Espírito Santo quem nos levava a Cristo. Agora Cristo nos traz o Espírito. Cristo é o meio para se chegar ao Espírito, que é o final. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, não tem a cruz como seu símbolo, mas uma pomba, significando o Espírito Santo. É a chamada “onda do Espírito”, que é, na realidade, uma pretensão à nova revelação. É aqui que reside o perigo maior: o Espírito Santo é um eufemismo para as impressões pessoais do intérprete, que se tornam uma palavra inspirada. O que ele acha é revelação do Espírito. Assim, a Bíblia deixa de ser normativa e passa a ser indicativa. A normativa é a palavra do líder. O uso que as campanhas da Universal fazem das Escrituras, particularmente o uso do Antigo Testamento, mostra isso. A Bíblia apenas legitima as práticas do grupo, em vez de regê-las. E o Espírito Santo se tornou propriedade dos iluminados da seita. O Espírito Santo fala quando alguém, líder, “sentiu” uma nova verdade. Na nova hermenêutica, o sentir vale mais que o que é, o que está escrito. Jesus é uma pessoa histórica, objetiva, e seu ensino está na Bíblia. O Espírito Santo não é uma pessoa histórica, embora seja uma pessoa, e seu ensino passa a ser o que as pessoas sentem. Isto cria um clero, pessoas especiais, com revelações do Espírito. Há, então, um clero que determina o credo e a prática para o povo. Tanto que muitos desses grupos não ligam a mínima para educação religiosa, EBD, etc. . Basta-lhes um salão para realizar seus cultos, carregados de emoção e muitos deles manipuladores das pessoas.
Esta nova hermenêutica tem privilegiado o domínio de revelações, visões e sonhos sobre a Bíblia. Uma pastora neopentecostal dizia, pela televisão, ter um mapeamento das potestades demoníacas. Quem era o demônio regente de cada território, os chamados demônios territoriais. Quando perguntada sobre onde conseguiu isto, disse com toda simplicidade que foi de demônios postos sob juramento. Não sei um demônio mesmo jurando estará dizendo a verdade. Mas me impressiona que uma pessoa diga com todas as letras que está ensinando uma revelação de demônios e as pessoas que a ouvem ainda exultem com isso.
Nossa identidade batista parte daqui: zelo pelas Escrituras. Nada de mais nada de menos. Quando ela fala, nós falamos. Quando ela cala, nós calamos. Todo material que produzimos, toda e qualquer postura eclesiológica, devem ser avaliados por ela. Não é se deu certo em algum lugar ou se está enchendo alguma igreja em algum lugar, ou se foi proferida por algum teólogo ou pastor muito consagrado e zeloso pela doutrina, mas se não colide com a Bíblia. Aliás, todas as heresias nasceram de pessoas muito espirituais e zelosas. Não de mundanos. É o que Paulo disse dos judeus: “têm zelo por Deus, mas não com entendimento”. O entendimento das Escrituras é fundamental para uma denominação sadia.
3. A LIBERDADE DE OPINIÃO
Liberdade de opinião ou liberdade de expressão é um outro apanágio dos batistas. É um legado nosso aos demais grupos evangélicos. A monarquia católica ou a teocracia protestante nunca poderiam predominar em meio à consciência batista. A tentativa de se formar uma Genebra calvinista nunca vingaria entre nós. Devemos isto, em termos de ação, a um jovem pastor de 24 anos, Roger Williams. Ele começou seu pastorado em Boston, em 1631. Não demorou para desagradar as autoridades locais. Ele recusava o direito dos magistrados em decretarem penalidades jurídicas por infrações religiosas. Williams achava que a Igreja e o Estado deviam ser absolutamente distintos, o que aliás, os separatistas ingleses que originaram a primeira igreja batista, com este nome, em 1609, na Holanda, já defendiam. Ele não criou o princípio, mas levou-o às últimas conseqüências. Sobre separação entre Igreja e Estado falaremos mais à frente. Mas Roger Williams defendia bem mais que isso. Defendia a absoluta liberdade religiosa. O Estado não tem direito de impor sua fé aos seus súditos. E as pessoas têm o direito de escolher a sua fé e até mesmo não professar fé alguma. Cada pessoa é responsável por sua vida e por suas decisões. O homem não pode ser tutelado nem pela Igreja pelo Estado. Por isso também que nunca podemos apoiar ditadura alguma. E toda e qualquer intolerância, seja racial, social, religiosa, ideológica ou política deve ser veementemente rejeitada por nós.
Tendo sido expulso de Boston, num inverno rigoroso, mas tendo sido salvo pelos índios, Roger Williams fundou uma pequena colônia, na Baía de Narragansett, com algumas de suas ex-ovelhas da Igreja Episcopal, que o acompanharam. No documento de fundação da colônia ficaram definidas como postulados a tolerância religiosa e a liberdade de opinião. Isto é motivo de satisfação para nós, ao mesmo que se torna um lembrete sobre como devemos proceder. A primeira comunidade que estabeleceu como princípio a liberdade religiosa absoluta foi fundada por um homem que veio a se tornar batista e que, em 1639, fundou a primeira igreja batista em solo americano. A liberdade de expressão é um fundamento muito caro aos batistas. Por isso me assusto muito, e até mesmo tenho me retraído em envolvimento com estrutura denominacional por causa disto, quando vejo pessoas julgando que somente seu grupo possui o verdadeiro espírito batista e age para impor o que julga ortodoxia aos demais. A busca de clones não é compatível com o caráter batista. Aliás, a riqueza da Igreja de Cristo está na sua diversidade. Isto se verifica até mesmo na chamada dos doze, feita por Jesus. Eles eram pessoas diferentes. Pescadores, cobradores de impostos, um possível guerrilheiro (se aceitarmos a tese de Oscar Cullman de que Judas Iscariotes quer dizer “Judas, o homem do punhal”). Um colaboracionista com Roma, o poder dominante, e um revolucionário, contra o poder dominante, portanto. Mas ambos chamados e ambos dentro da perspectiva de Jesus.
Esta liberdade de opinião permite que a CBB, por exemplo, abrigue em seu meio amilenistas, pré-milenistas, pré-milenistas dispensacionalistas e pós-milenistas. Neste aspecto, ela guardou o princípio batista. Há outros grupos batistas que exigem uma postura específica. Não é o nosso caso. Abrigamos diversas tendências porque este ponto não é fundamental, mas secundário.
É preciso também deixar algo claro aqui. Liberdade de expressão não significa uma babel teológica, mas sim que onde há pontos inegociáveis não há nada para se negociar. E que onde há pontos não definidos, mantém-se uma postura de respeito. Mas ela é uma conseqüencia inevitável do fato de que não temos um papa ou alguém “infalível”, que todos temos o Espírito Santo, que somos todos falíveis, também. É um desdobramento do sacerdócio universal de todos os salvos. Se todos temos acesso a Deus e se todos temos o Espírito Santo, nenhum de nós é mais conectado a Deus do que os demais, para falar em seu nome aos demais. Não temos gurus entre nós. Nem papas. O autoritarismo teológico é uma agressão em si, pelo que significa, e é, também, uma agressão à nossa história.
É óbvio que isto faz com que surjam muitas divergências. Aliás, o capítulo X do livro de Faircloth e Torbert, Esboço da História dos Baptistas, se intitula “Livres Para Divergir”. É um capítulo dedicado às divergências históricas entre os batistas, em seus vários grupos. Mas como alguém já disse, um bom princípio a se observar aqui é: “Nas pequenas coisas, diversidade; nas questões capitais, unidade; em todas as coisas, caridade”. Divergências no cristianismo aparecem cedo, como vemos em Atos 15, e nas cartas de Paulo, todas elas escritas para resolver problemas na vida das igrejas (talvez as exceções sejam Efésios e Filipenses). Mas é uma atitude cristã saber viver com divergências. E é, também, uma marca do espírito batista.
4. O BATISMO CONSCIENTE DE CRENTES
A idéia de que o batismo tinha poder salvífico se arraigou na Igreja cristã muito lentamente. Parece que pelo quarto século, o sacramentalismo acabou impondo a ceia e o batismo como sacramentos e como elementos obrigatórios, a serem ministrados para trazerem graça espiritual. O batismo passou a ser algo praticado para se alcançar a salvação. Mas já desde o segundo século que a prática de batizar crianças se institucionalizara na Igreja. Segundo O Didaquê, obra ainda do primeiro século, a igreja primitiva usava a imersão e a afusão como métodos de batismo. Tudo leva a crer que as crianças (não no Novo Testamento, pois não temos notícia de batismo infantil neste período) eram submetidas à afusão e, mais tarde, à aspersão.
O entendimento do batismo como elemento transmissor de graça (sacramento) deve nos alertar. Com muita facilidade as pessoas transferem para objetos, gestos e ritos, alguns poderes especiais (no seu entendimento). Muitas vezes sacramentamos formas e ritos. Já ouvi gente dizer que o Cantor Cristão é inspirado e que nunca deveríamos ter um novo hinário, que não é inspirado. Inspirado, para nós, é só a Bíblia. E nenhum material pode ser visto como algo sagrado. Isto traz problemas, pelos desdobramentos posteriores.
A grande luta dos separatistas se deu nesta área: o esforço
para se ter uma igreja composta apenas
de crentes regenerados. A pessoa só podia ser membro da igreja pelo
batismo e este só podia ser aplicado a pessoas conscientes do que estavam
fazendo. Ninguém podia impor o batismo a outro. E a única motivação é a
conversão a Jesus. Batizei uma pessoa que fora batizada na Universal. Antes de
fazê-lo, quando questionei o porquê de seu batismo, a resposta veio mais ou
menos nestes termos: “Eu recebi uma bênção lá na Igreja. Aí me disseram que se
eu quisesse continuar sendo abençoada eu deveria ser da Igreja e para isso
teria que me batizar. Então fui batizada para continuar sendo abençoada”. Não é
esta a motivação para o batismo. A motivação é a fé
A adoção de uma determinada Igreja pelo poder civil levou a um ingresso na Igreja, pelo batismo, de uma quantidade enorme de pessoas sem nenhuma convicção religiosa. Desde que Constantino adotou o cristianismo isto começou a acontecer. A Igreja se tornou morada de incrédulos e não de regenerados. Mas devidamente submetidos a um ritual chamado batismo. Este é um problema quando as linhas entre o poder civil e a Igreja são tênues ou são apagadas.
A concepção mágica do batismo também produziu muitos membros da Igreja incrédulos. Temos informes da crise teológica de alguns jesuítas que vieram como missionários para o Brasil. Acreditavam que batizando o índio, este se converteria, pois o batismo tinha um poder sacramental, mágico-mítico. Mas batizava-se o índio e este continuava antropófago e idólatra. O batismo não regenera. Apenas testemunha de uma regeneração que deve ter sucedido. O batismo consciente de adultos impede isto e faz com que a Igreja seja composta de convertidos. Se hoje, batizando apenas adultos, temos uma quantidade enorme de gente encostada em nosso meio, imagine-se batizando-se bebês recém-nascidos e considerando-os membros da Igreja!
Esta insistência no batismo somente de crentes fez com que o rótulo de “anabatistas” fosse aplicado a muita gente que nada em comum tinha com os anabatistas. E algumas pessoas o aplicam aos primeiros batistas. Mas este era um termo genérico, como é hoje o termo “evangélico” que para o nossa “bem informada” mídia engloba todo mundo que não seja católico. Mas os anabatistas remontam a 1490, com Conrado Grebel tido como seu fundador, sendo ele um ex-cooperador de Zuínglio. Discordou de Zuínglio por não aceitar o batismo infantil. E com eles, os anabatistas, os batistas tinham em comum o batismo apenas de regenerados, uma Igreja composta apenas de regenerados, a supremacia das Escrituras e a liberdade civil e religiosa. Mas discordavam deles no seu pacifismo radical, sua omissão como cidadãos (alguns anabatistas viam o Estado como demoníaco) e sua proibição de juramentos, inclusive em tribunais, pontos de vista teológicos sobre encarnação e hipnose da alma e a necessidade da sucessão apostólica para o batismo. Mas voltemos à visão sobre o batismo consciente de crentes.
Preocupa-me o fato de que o batismo tem se tornado em alguns
segmentos nossos um ato social. Muita gente se batiza porque está freqüentando
a igreja há muito tempo, porque a família toda é batizada, porque é o único
quesito que lhe falta para ser crente, pois é freqüentador assíduo, etc. A
única razão válida para o batismo é a fé
Neste aspecto do batismo, os batistas devem algo aos
menonitas. De 1609 até 1638, os batistas praticavam apenas a afusão. Foi no contato com os menonitas que
aprenderam a praticar o batismo por imersão. Em
5. A SEGURANÇA ETERNA DOS SALVOS
Esta é outra herança teológica preciosa dos batistas. A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, ao falar sobre a doutrina da salvação, traz esta afirmação: “O preço da redenção eterna do crente foi pago de uma vez por Jesus Cristo, pelo derramamento do seu sangue na cruz”. Chamo a sua atenção para as expressões “redenção eterna”, “pago de uma vez” e “pelo derramamento de seu sangue na cruz”. A salvação é eterna. Não é temporária nem parcial. O assunto foi resolvido de uma vez por todas na cruz. Cristo não pagou cotas e deixou outras para nós. Pagou tudo, de uma vez. Não foi parcialmente. O autor de hebreus mostra que seu sacrifício foi único, irrepetível e perfeito. E o preço pago por ele foi seu próprio sangue. É importante ressaltar uma coisa: no processo da salvação, não somos o agente, mas Jesus Cristo o é. E sua obra é perfeita. A salvação não depende de nós, mas dele. Ele não rejeita o pecador que vem a ele, nem se arrepende de nos ter salvado.
“Mas conheci muita gente que esteve na igreja e hoje está excluída!”, e o argumento sempre ouvido nestes casos. A antiga Confissão de Fé, substituída pela Declaração Doutrinária, trazia o item XI, “Da Perseverança dos Santos”. Nele se diz: “Cremos que só são crentes verdadeiros aqueles que perseveram até o fim; que a sua ligação perseverante com Cristo é o grande sinal que os distingue dos que professam superficialmente”. A característica marcante de um verdadeiro salvo é que ele persevera na fé. Cabem aqui as palavras de 1João 2.19: “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos”.
Isto é
realmente tão relevante assim? Sem pestanejar, respondo que sim. Porque o
evangelho fala de salvação. Ela é obra exclusiva de Jesus Cristo. Nós não a
produzimos. Nós a aceitamos. A
qualidade da nossa salvação está relacionada com o caráter do nosso Salvador.
Ela não depende de nossos esforços. Quando se pensa na possibilidade da perda
da salvação, assume-se que há esforços humanos que podem derrubar o que Cristo
fez. E coloca-se a salvação como algo que podemos ter ou deixar de ter com base
no que fizemos ou deixamos de fazer. Ela não é mais obra da graça. Nem sua
eficácia e sua durabilidade. E esta concepção batista torna a Igreja uma
instituição que, espiritualmente, está segura para sempre, pela sua fé
E há muita coerência batista quando se analisa esta doutrina junto com a do batismo apenas para regenerados. Não há como alguém realmente batizado vir a se desviar. Se a pessoa foi regenerada pelo poder do Espírito Santo e foi batizada, então está segura. Isto nos recorda que o batismo não é para simpatizantes do evangelho, mas para regenerados pelo evangelho. Temos batizado muita gente que é apenas simpatizante do evangelho e esses, um dia, não sendo convertidos, correm o risco de ir embora. Mas quando se tem certeza de que o batizado, que se torna membro da igreja, é um regenerado, este permanecerá na fé. Se a pessoa morreu para vida anterior, como pode voltar a viver nela? E é também, para nós, a garantia de que a verdadeira igreja estará preservada, pois será sempre de regenerados. Ao mesmo tempo, é uma advertência para quem se chega a uma igreja batista: está assumindo um compromisso para sempre. Ser membro de uma igreja batista é um sinal, uma declaração, de conversão a Jesus Cristo e a expressão do desejo de se unir ao seu povo. Ao mesmo tempo é uma declaração de que se está assumindo um compromisso com Cristo e o seu evangelho para sempre. A identidade de um batista é forte, aqui: ele é um salvo e salvo para sempre e por completo.
6. BATISMO E CEIA COMO ORDENANÇAS E NÃO COMO SACRAMENTOS
Sacramento é o ato religioso que santifica ou confere graça a quem o recebe. Ordenança é o reconhecimento de quem uma determinada ordem foi atribuída a alguém. Há uma diferença muito grande entre os dois. Parece que a idéia do batismo e da ceia do Senhor como sacramentos se deu por volta do quarto século. Eles necessitam, por serem ritos mágicos, uma classe especial de pessoas. Por isso, com o sacramento veio logo o surgimento de um clero. Para a Igreja Católica, os sacramentos são sete: batismo, confirmação, eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio. São elementos que conferem graças.
Os batistas entendemos que Jesus deixou duas celebrações para sua Igreja e que as igrejas devem observar: o batismo e a ceia. Nunca os vimos como veículos transmissores de graça, mas como atos de celebração da fé. O batismo celebra e testemunha nossa conversão a Cristo e proclama a nossa disposição de uma vida com ele. A ceia celebra a morte vicária de Cristo e anuncia sua volta. Alguns outros pequenos grupos batistas adotam, ainda o lava-pés. Mas dispenso-me de abordar isto por ser algo pouco expressivo.
Sobre o batismo já se falou um pouco, anteriormente. Abordamo-lo aqui apenas pelo ângulo de não ser um sacramento. Detenhamo-nos, então, um pouco, na ceia. A postura católica é a da transubstanciação, evento em que o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo. Isso se dá quando do ofertório, na missa, quando o padre oferece os elementos a Deus. Eles são transformados. Aliás, por favor, não chame o momento de dízimos e ofertas na sua igreja de “ofertório”. A não ser que haja lá algum padre que esteja transformando os elementos no corpo e sangue de Cristo. Os batistas não temos “ofertório”. Temos “devolução dos dízimos”. Uso o termo “devolução” porque dízimo não se paga nem mesmo se dá. Devolve-se. Não é nosso, é de Deus e veio à nossa mão por algum momento. Lutero adotou a prática da consubstanciação. Segundo ele, o pão e o vinho não se transformam no corpo e sangue de Cristo, mas Cristo está com a substância. Zuínglio defendia a presença espiritual de Cristo quando da celebração da ceia. Os batistas não aceitamos nenhuma destas posições. Entendemos ser um memorial. Baseamo-nos nas palavras de Jesus: “fazei isto em memória de mim”. Batismo e ceia não conferem graças, mas testemunham de nossa fé. Por isso que não chamamos a ceia de “santa ceia”. Não chamamos o batismo de “santo batismo”. É que o valor da cerimônia não está na sua possível santidade, mas na sua significação.
Dirá alguém que está farto de saber isto. Mas é preciso que
reafirmemos nossa posição anti-sacramentalista, porque vemos hoje o regresso
desta prática, devidamente metamorfoseada pelo neopentecostalismo, no meio das
igrejas evangélicas. O cenário
evangélico atual apresenta um cenário onde elementos mágicos e sagrados se
fazem presentes. Tenho visto igrejas distribuindo sal do mar Morto para “abrir
caminho” (igreja, sim senhor!), azeite declarado como vindo do monte das
Oliveiras sendo usado para ungir as pessoas (há alguma usina de beneficiamento
de azeitonas lá?) e até crucifixos feitos da cruz de Jesus (pastores
evangélicos, sim!). Vai se generalizando a prática de beber água de um copo
devidamente benzido pela oração do pastor. Algo tão supersticioso como a água
benta do padre. A alegação que ouvi, de um crente batista, é que ele se sentiu
bem depois de beber daquela água. É a figura sacramental: o sentimentalismo e a
sensação ocupam o lugar do ensino bíblico.
Há um fetichismo em nosso meio com terra santa, areia santa, água santa,
sal santo, folha de oliveira santa, etc. No cristianismo as pessoas são santas,
mas as coisas não. No cristianismo não há lugares e objetos santos. Nem mesmo o prédio onde a igreja se reúne é
santuário, no rigor do termo. O prédio onde a Igreja se reúne e que alguns
chamam, na linguagem do Antigo Testamento,
de “santuário”, não é santuário nem
morada de Deus. É salão de cultos. O Eterno não mora em prédios, mas
A consideração de objetos como se fossem sagrados leva à
santificação deles. Daí para a idolatria e sua irmã gêmea, a superstição, o
passo a ser dado é pequeno. Por isso precisamos reafirmar: não temos
sacramentos e repudiamos a espiritualização de símbolos e de gestos. O
transmissor de graça é o Espírito Santo. Ele habita em nós, se somos
convertidos. Se alguém não é, pode se
afogar nas águas do Jordão, ficar com barriga d’água de tanto beber água ungida
pela oração do pastor, que isso não adiantará nada. A fé deve ser posta em Deus
e não em coisas nem em gestos nem
7. O SACERDÓCIO UNIVERSAL DE TODOS OS SALVOS
Desde o início, os batistas partilharam com os vários grupos insatisfeitos com o protestantismo e com os separatistas, que eram os insatisfeitos da Igreja da Inglaterra, a rejeição de um clero. Isto é o que se chama “a doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos”. Num certo sentido, não temos sacerdotes entre nós. Isto no sentido de alguém com mais acesso a Deus do que os demais. Em outro sentido, todos nós somos sacerdotes porque todos nós temos acesso a Deus, sem necessidade um mediador humano.
O pastor não é um sacerdote. Sua oração tem tanto valor, aos olhos de Deus, como a oração do zelador da igreja, desde que este seja crente. A oração do crente é ouvida por causa da graça de Deus, da mediação de Jesus e da intercessão que o Espírito faz por nós, junto à Trindade. A identidade batista é fortemente marcada por esta concepção teológica: o sacerdócio universal de todos os salvos, em conseqüência do livre acesso que todos nós temos à presença divina. Não precisamos da corrente de 318 homens e mulheres de Deus para sermos abençoados. Podemos ser abençoados porque Deus tem prazer em dar coisas boas a seus filhos e as dará aos que lhe pedirem. Há critérios para isso e o Novo Testamento os explicita. Mas a responsabilidade não é de um clero. É da igreja como um todo.
No entanto, esta doutrina tão valiosa está sendo diluída em nosso meio. Isto está sucedendo por causa do entendimento cada vez mais forte, de que temos um clero e um laicato. Preocupa-me ver, cada vez mais, as igrejas terem ministros formados e assalariados para tudo, como se fosse esta a única maneira de prover liderança para as comunidades eclesiásticas. Acho correto termos ministros de música, de educação religiosa, de juventude, de missões, etc., em nossas igrejas. Milito na educação ministerial, fui presidente da ABIBET por seis anos, e não poderia pensar doutra maneira. Mas me receio que com isso se diga ao nosso povo que só as pessoas que são formadas em seminários e que sejam devidamente remuneradas podem fazer a obra de De
Pib Teresópolis
Rua Nova Friburgo, n° 280, Teresópolis RJ CEP : 25963-020
Telefone : (21) 2742-1979
©2009 Pibt - Todos os direitos reservados. Política de privacidade