Quando Pelé acaba de fazer 70 anos, e todo mundo se desmancha em elogios à “Sua Majestade”, peço vênia para destacar outro mineiro bom de bola. Falo de Tostão. Lembro-me quando o time do Cruzeiro, de BH, de 1967, despontou como o único capaz de enfrentar, de igual para igual, o temível Santos, de Pelé. Além do Tostão, havia no time o Dirceu Lopes, o Zé Carlos, o Piazza, e o Natal. O goleiro era o Raul que, numa época em que os goleiros só jogavam de preto, vinha a campo todo de amarelo. Além de agarrar bem, o cara ainda era “boa pinta”.
Anos depois, Tostão foi vendido para o Vasco da Gama. Vê-lo jogar naquele timinho do Vasco dava pena. Num tempo em que raramente havia futebol ao vivo na TV, eu ia com meu irmão a São Januário, num exercício de masoquismo, e saía alegre com a simplicidade do futebol do Tostão, mas revoltado com a limitação do resto do time. A zaga do Vasco era composta por Fidelis, Renê, Moisés e Alfinete. Renê e Moisés eram os xerifes da área. Não me lembro bem se jogavam futebol, mas caratê tenho quase certeza que praticavam. O Alfinete, que veio do Olaria, batia até na mãe, se fosse preciso. O Tostão, coitado, mandava uma bola redondinha pros companheiros e só recebia pedrada. A gente via que ele estava num nível bem acima do resto do time. Como bom mineiro, sofria calado.
Eu era fominha de bola e, quando estava num time ruim, danava a criticar os colegas peladeiros, apontando suas falhas e ridicularizando suas jogadas. Depois que vi o Tostão, no Vasco, aprendi que não precisava ficar mostrando os erros dos outros, para tentar “limpar minha barra” e justificar as derrotas do meu time. Descobri que as pessoas sabiam distinguir quem era quem. Então, finalmente passei a jogar bola calado, tendo comiseração daqueles que não tinham tanta intimidade com a redonda.
Parar de criticar os outros foi, sem dúvida, uma escala no meu amadurecimento. Aos poucos, levar isso para outros setores da vida foi o meu grande desafio. A vida me mostrou que a gente não consegue quase nada criticando pessoas. Eu, por exemplo, nunca vi um marido se tornar melhor por causa da crítica da mulher. Mas já vi muito machão empedernido lavar prato e até fazer faxina na casa porque foi persuadido pela palavra sábia da esposa.
Li, não sei onde, que um pai saiu de casa e, quando voltou, pra surpresa sua, o lar estava um lixo. Parecia que passara por lá um vendaval. Quando chegou a determinada área, viu seu filho diante de uma tela, tentando pintar a face da sua irmã. O pai, em vez de reclamar da bagunça, elogiou o quadro, dizendo: “Mas esta é Sally!” Ali nascia um grande artista.
Fui um péssimo aluno até o ensino médio, numa Escola Técnica, quando recebi um grande elogio de uma professora. Aquilo mexeu com meus brios. Depois de tudo o que ouvi, resolvi estudar, pois não podia decepcioná-la. Tomei gosto pelo estudo, e a minha vida estudantil mudou por completo.
Se você é qual Tostão naquele time do Vasco, em vez de reclamar, esbravejar e desconsiderar as pessoas, continue dando o seu melhor. Mesmo que elas não façam as coisas tão bem quanto você, quem sabe a sua compaixão, e as palavras de encorajamento mexam com seus brios, e elas se tornem mais esforçadas, ou pessoas melhores. Pare de criticar e comece a encorajar. Aí, sim, finalmente todos verão que você é realmente muito bom.
Pr. Renato Cordeiro de Souza (PIBT)
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