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O EVANGELHO DAS BAILARINAS

Chico Buarque e Edu Lobo compuseram “Ciranda de Bailarina”, em 1983, para o musical “Grande Circo Mi?stico”.



Chico Buarque e Edu Lobo compuseram “Ciranda de Bailarina”, em 1983, para o musical “Grande Circo Mi?stico”. A letra mostra o fasci?nio que as bailarinas, disciplinadas, com suas roupas mimosas, corpos esguios e pe?s milimetricamente esticados, provocam no audito?rio. As cortinas se abrem e, ao primeiro acorde, magicamente elas se transformam em seres perfeitos, intoca?veis, divinos. Muitos, na plateia, ficam ta?o encantados que na?o veem seus pe?s deformados, como realmente sa?o. Ei-la:
 
“Procurando bem todo mundo tem pereba,/marca de bexiga ou vacina./ E tem piriri, tem lombriga, tem ameba,/so? a bailarina que na?o tem./E na?o tem coceira, verruga nem frieira,/nem falta de maneira ela na?o tem./Futucando bem todo mundo tem piolho,/ou tem cheiro de creolina./Todo mundo tem um irma?o meio zarolho,/so? a bailarina que na?o tem./Nem unha encardida, nem dente com comida,/nem casca de ferida ela na?o tem./(...)”

Muitas igrejas evange?licas apresentam a fe? crista? como uma bailarina. A pessoa se converte a? sua igreja, e na?o tem mais pereba, piriri, lombriga, ameba, nem coceira ou frieira. A bailarina crista? tambe?m na?o tem “sala sem mobi?lia, goteira na vasilha, problema na fami?lia”. E? o ce?u na terra. Tudo perfeito. Tudo certinho. Nenhuma incomodidade, nada de dor e de reveses a que os simples mortais sa?o acometidos.
 
A fe? crista? pregada por essa gente apresenta um cristianismo sem dor, sem trauma, sem adversidades. Na?o admite sequer uma espinhela cai?da, nem uma dor nas cadeiras, ou uma mera escarlatina. Na?o ha? qualquer concessa?o para um reumatismo, uns inco?modos gases, caspas no cabelo e espinhas nos rostos. Na?o. E? um tal de crente sarada?o, sem crises e sem problemas que da? ate? para desconfiar. As bailarinas de Deus, tais como as do Chico, “na?o te?m medo de subir, gente; medo de cair, gente; medo de vertigem”. Este tipo de fe?, assim apregoada, deveria ser autuada como propaganda enganosa.
 
Ta?o diferente dos hero?is bi?blicos, que foram torturados, passaram por esca?rnios e ac?oites, algemas e priso?es, foram apedrejados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada, andaram peregrinos, necessitados, afligidos, maltratados, errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas e pelos antros da terra. A Bi?blia diz que, apesar dessas amarguras, o mundo na?o era digno deles (Hb 11.35-38).
 
Paulo pregou aos ga?latas quando foi tratar de um problema de enfermidade (Gl 4.13). Deixou seu amigo Tro?fimo doente em Mileto (2Tm 4.20). Aconselhou seu filho na fe?, Timo?teo, a tratar a sua u?lcera estomacal (1Tm 5.23). Jesus foi chamado a acudir seu amigo La?zaro, a quem amava, que estava muito doente, e acabou morrendo (Jo 11.3).
 
Davi mentiu, adulterou, urdiu a morte de um homem, guerreou e, mesmo assim, se tornou “o homem segundo o corac?a?o de Deus”. Abraa?o enfrentou fome, mentiu, errou, negou a pro?pria mulher para livrar a sua cara, e foi chamado de “o amigo de Deus” e “pai da fe?”. Os disci?pulos eram orgulhosos, incre?dulos, e na primeira tempestade temeram. Muitos deles eram cabec?as-duras, e na?o confiaram em Jesus. Mesmo assim se tornaram apo?stolos (enviados). Pedro, apo?s a Ressurreic?a?o, foi censurado por Paulo, por causa da sua incoere?ncia (Gl 2.11). Ou seja, eram crentes, mas falhos, como todos mortais. Na?o perderam a sua humanidade. Mas, nas suas fraquezas, experimentaram a grac?a misericordiosa de Deus.

As duas u?ltimas frases de “Ciranda da Bailarina” devolvem a verdade: “Procurando bem..., todo mundo tem.” Decididamente, a fe? crista? na?o faz de ningue?m um super-homem. Procurando bem, todos os santos te?m pe?s de barro. O que o evangelho faz e? transformar fra?geis pecadores em pessoas capazes de enfrentar todas as circunsta?ncias, as boas e ruins, porque te?m em suas vidas um Deus poderoso e solida?rio que os fortalece (Fp 4.13). O resto e? conto de bailarina.


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