Li, no “Nosso Andar Diário”, sobre uma família cuja atenção na estrada tinha de ser redobrada, pois o acúmulo de neve e gelo obrigava o carro a trafegar devagar. Quando, finalmente, saíram do trecho aparentemente mais perigoso, o motorista, crente, disse em voz alta: “Obrigado, Senhor. Agora, acho que posso dirigir daqui em diante.” Assim que acabou de finalizar suas palavras, o carro rodopiou, fazendo um giro de 180 graus.
Quando o presidente americano Barak Obama ainda era uma novidade no cenário mundial, e vivia em lua-de-mel com seus conterrâneos, ele virou-se para o nosso, dizendo: “Este é o Cara!” Daí em diante surgiram outros títulos para Lula. Ele foi “O Homem do Ano” para os jornais “El País” e “Washington Post”. Na semana passada iria receber o prêmio de “O Estadista Global”, do Fórum de Davos, na Suíça, quando adoeceu. Tudo o que posso acrescentar é: “E ele acreditou!”
Lula, anos antes de chegar ao topo do mundo, em 2006, havia dito que “a saúde no Brasil está quase perfeita”. Claro que ninguém o levou muito a sério. Certamente não falava dos hospitais públicos, onde ele não deve entrar há anos, mas dos de primeira linha aos quais, como presidente, tem livre acesso. Pensávamos que era uma brincadeirinha dele. Mas, em novembro passado, já picado pela mosca azul, num discurso no Congresso, aconselhou o presidente Obama a que fizesse um SUS, para os pobres norte-americanos, nos moldes do SUS brasileiro. Tudo o que posso acrescentar é: “E ele acreditou!”
Agora, na quarta-feira, 27/1, ele foi a Recife inaugurar um posto de saúde. No alto da sua popularidade, falando para uma platéia amistosa, recheada de capachos, valorizava a obra inaugurada, fazendo um gracejo: “Dá até vontade de a gente ficar doente para ser atendido aqui”. Aliás, no mesmo dia, assim que chegou a Recife, disse: “Vocês estão lembrados, o orgulho que eu tenho, quando o FMI chegava aqui no Brasil humilhando o governo brasileiro... Já descia no aeroporto, dando palpites, dizendo o que a gente tinha que comprar, o que a gente tinha que vender, o que a gente tinha de estatizar... Agora quem fala grosso sou eu. Porque, se antes era o Brasil que devia ao FMI e ficava que nem cachorrinho magro, com o rabo entre as pernas, agora quem me deve é o FMI”. Josias de Souza, jornalista da “Folha de São Paulo”, ouvindo isto, observou: “Vale a pena repetir dois pedaços do raciocínio do presidente. O primeiro: ‘Agora quem fala grosso sou eu.’ O outro: ‘Agora quem me deve é o FMI’.” Antes de dizer “E Ele acreditou!”, é preciso também lembrar ao divino presidente e supremo mandatário da nação que quem deu o dinheiro, vindo do FMI, foi o povão. Lula e os outros governantes brasileiros apenas o gastaram. E tem mais: por mais deificado que Lula se sinta, o Fundo deve aos brasileiros, e não à Sua Excelência.
Herodes também fazia um discurso político a uma platéia aliada. Quando terminou, os bajuladores começaram a gritar: “É voz de deus, e não de homem!” (At 12.22). Ele acreditou! Diz a Bíblia que morreu na hora, “por ele não ter dado glória a Deus” (At 12.23). Com Lula foi diferente. Passou mal, teve de passar a noite num hospital cinco estrelas do Recife, e não pôde viajar a Davos para receber seu prêmio de “melhor do mundo”. Sentiu ali aquela sensação de finitude que deve incomodar todo falso deus.
Não sou político. Neste espaço, não escrevo sobre política. Falo de Deus. Que não divide a glória dEle com ninguém. Muito menos com um presidente que “é o Cara!”.
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