Em 2002, quando era candidata às eleições presidenciais da Colômbia, a senadora Ingrid Betancourt foi sequestrada e aprisionada pelo comando das Farc, uma brutal organização guerrilheira colombiana. Ao longo de sete anos ficou sujeita a uma vigilância feroz, no interior da selva. Foi acorrentada, humilhada, sofreu graves problemas de saúde, e acumulou um vasto enredo de desventuras no cativeiro, entre marchas forçadas pela selva, deslocamentos de barco e improvisados acampamentos.
No seu livro “Não há silêncio que não termine”, ela narra os seus anos de selva. Ela mostra como a expectativa inicial de uma rápida libertação cedeu lugar à prostração e à indiferença com o passar dos anos. Revelou também como, na rotina do dia-a-dia, as relações com os outros sequestrados e sequestradores ficaram marcadas por picuinhas e desentendimentos corriqueiros.
Ingrid resistiu com dignidade às pressões psicológicas dos seus algozes, recusando-se a delatar seus companheiros e a colaborar com a desumanização dos sequestrados. Contou também como a escuta cotidiana do programa de rádio destinado ao envio de mensagens dos seus familiares e a descoberta da Bíblia deram-lhe forças para resistir em meio à doença, à fome e ao desespero.
Numa visita de surpresa ao acampamento, o chefe das Farc, querendo ser cortês com os sequestrados, pediu que fizessem uma lista de coisas que necessitavam, assegurando que lhes seria enviado. Mesmo não acreditando naquelas promessas, Ingrid fez uma lista de artigos de higiene pessoal e incluiu a necessidade de uma Bíblia. Passados alguns dias tudo o que pediu, chegou inclusive uma pequena Bíblia de couro.
Após mais uma tentativa fracassada de fuga, sob severas punições, ela finalmente conseguiu sintonizar um programa evangélico, em ondas curtas. A princípio ela ignorou-o, pensando que fosse mais um desses pregadores que consideram Deus uma vaca leiteira. Mas um dia se arriscou a escutá-lo. E aquelas palavras adquiriram o mais profundo e precioso sentido para a sua vida. Segundo ela, ele simplesmente “lapidava um diamante na sua frente”. E, desse dia em diante, “já não havia mais, para mim, dia ou noite, sol ou chuva. Os sons, os cheiros, os insetos, a fome e a sede, tudo deixou de existir. Eu lia, escutava, meditava, passava em revista cada episódio de minha vida à luz de minhas novas reflexões. Minha relação com Deus se transformou. Não precisava mais de intermediários para ter acesso a Ele, nem de rituais. Ao ler Seu livro eu via um olhar, uma voz, um dedo que apontava, que incitava... Este Deus me pareceu simpático. Ele falava. Pesava as palavras. Tinha senso de humor.”
Ingrid precisou passar por um sequestro para descobrir a sua necessidade de Deus. Finalmente, entendeu que nosso relacionamento com Ele não precisa ser guiado por rituais nem ficar limitado a determinados dias e lugares, ou sob a supervisão de determinadas pessoas. Quando temos sede de Deus, Ele está pronto a nos suprir.
Eu tenho aprendido que nos lugares mais secos da alma, e nos momentos mais estéreis da vida, quando experimentamos a maior solidão e senso de desorientação, eis aí exatamente o lugar ideal e a grande oportunidade para Deus se revelar a nós. E então Deus nos mostra quem Ele é, e que Ele nos vê. Porque, na Sua infinita capacidade de enxergar as coisas, nos vê. No meio da nossa aflição sem direção, Ele nos vê.
O Exército da Colômbia procurou-a, na selva, por sete anos. Nesse período, o governo colombiano obteve a cooperação das forças armadas dos EUA, a maior potência bélica dos nossos dias. Ganhou o interesse diplomático da França, já que ela também era francesa. Em que pese tudo isso, Ingrid viveu sete anos desaparecida, a ponto de muitos pensarem que ela já estava morta. Mas quando buscou a Deus de todo o coração, Ele a encontrou e falou ao seu coração.
Jesus disse certa vez: “Quem tem sede venha a mim e beba”. Saiba que a sua experiência com Deus tem a exata dimensão do seu interesse por Ele. Para encontrá-lO, basta ter um coração faminto, pois Ele promete: “ buscar-me-eis, e me encontrareis quando me buscardes de todo o vosso coração.”
Pastor Renato Cordeiro de Souza
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