O primeiro
funeral que dirigi foi do pai de um querido pastor gaúcho. Para o culto vieram
vários pastores do Estado, e eu só presidi a cerimônia. Convidei um para pregar
e outros para orar. Lá no cemitério, um dos pastores me deu o seguinte
conselho: “Esta é à hora mais triste da
cerimônia, então coloque o povo de Deus para cantar. Cante as grandes promessas
de Deus sobre a vida eterna. O nosso povo nunca ouve muito sobre escatologia no
púlpito. O grande consolo dos crentes vem através das letras desses velhos e
queridos hinos do Cantor Cristão”.
Segui
para Portugal e, nesta área, tomei um baita choque cultural, pois percebi o
desconforto com que alguns colegas pastores tentavam explicar, para os
incrédulos, a razão de o crente cantar em meio à morte. Como se fosse errado
cantar na dor. Aquilo me fazia lembrar os hebreus quando foram levados para o
exílio, na Babilônia. Eles ficavam sentados nas margens dos rios, chorando.
Penduravam seus instrumentos nas árvores e se negavam a cantar quando os que
lhes oprimiam pediam que os alegrassem com as canções da terra natal. Eles,
então, diziam: “Como entoaremos o cântico
do Senhor em terra estrangeira?” (Sl 137.4). Eles não sabiam cantar na
adversidade.
Thiago de Mello,
poeta amazonense, tem um poema que diz: “Faz
escuro, mas eu canto”. Sempre acho que ele se inspirou em Paulo e Silas
para compor sua poesia. Se está lembrado, os missionários foram presos e
colocados no cárcere interior, depois de terem sido injustamente caluniados e
espancados. Para chegar lá, eles desciam um túnel sobre cordas e ainda tinham
os pés amarrados sobre um tronco. Mas, em que pese tudo isso, eles cantavam.
Não cantavam pagode nem música popular. Cantavam hinos a Deus. Ocorre que numa
situação assim as pessoas costumam resmungar:
“Ó céu, ó vida, ó azar!” Outros ficam amargurados e deprimidos, e até
amaldiçoam. E uns poucos sentem vontade de não mais viver.
O romancista
mineiro Lúcio Cardoso costumava dizer: “Escrevo
porque não tenho olhos verdes.” Paulo e Silas, e muitos crentes sinceros,
podiam dizer: “Canto na dor porque tenho
um tesouro no coração”. Esta riqueza interior vem da presença de Jesus
Cristo na vida. De repente, a pessoa
percebe que tem estrutura espiritual, vinda da Palavra de Deus, que o leva a
cantar ao Senhor mesmo na aflição.
Canta-se na dor
quando se sabe que Deus está no controle. Se as pessoas nos abatem, Ele nos
levanta. Se nos oprimem, Ele nos recupera. Como diz Paulo: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, injúrias, nas necessidades, nas
perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque quando sou fraco,
então, é que sou forte” (2Co 12.10). Assim, quando o crente está fraco ele
dá oportunidades para Deus agir. Sabe também que, muitas vezes, Deus permite
situações adversas, difíceis, para que haja testemunho da Sua graça. O crente
sabe que Deus não fica limitado às suas limitações. E Deus pode usar os
momentos dolorosos da sua vida para impactar a vida dos outros. A dor é o lugar
onde Deus quer usar as nossas vidas.
Se você está
sofrendo, passando por um momento difícil, pare de se lamentar e de
choramingar. Aja como um cristão que deu sua vida a Cristo, e conhece o Deus de
toda consolação. Veja nesta situação a oportunidade de exercitar sua fé.
Experimente cantar um hino, pois o nosso Deus, o Pai de Jesus Cristo, no meio
da mais intensa dor, quer fazer a luz
dEle brilhar em sua vida.
Pastor Renato Cordeiro de Souza
Pib Teresópolis
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